domingo, 6 de Abril de 2008

Diz: Curso

Diz: "Curso".

E segue-o com os olhos, com a razão ou com o coração. Dá-lhe importância, ignora-o, faz dele o que bem entenderes.


Mas diz: "Curso", e deixa o fluir. Deixa-o, ao discurso, seguir o seu caminho.


Deixa-o. Que surja espontâneo, filho de uma tempestade, criadora de torrentes indómitas, ansiosas por se libertar. Deixa-o brotar da pedra morta, vindo sabe-se lá de onde, sabe-se lá porquê. Apeteceu-lhe brotar.

Deixa que ele te leve até um mar de maravilhas, ou te leve a uma foz onde desaguam outros rios, e onde a doçura do marulhar num regato se transforme no bramido de gigantescas ondas.

Ou então que não faça nada disso. Que brote, sulque a terra por alguns metros, e depois esmoreça e morra no nada.

Mas mesmo assim, diz: "curso". E deixa-o fluir para algures, para nenhures, não importa. Sem qualquer outro destino que não o de amar palavras.

Porque mesmo nesse caso, cumpre a finalidade de irrigar as áridas planícies do silêncio, quando estas se tornam demasiado insuportáveis, e precisas do ruido de uma voz. Nem que seja a tua, a pedir: "Diz. Diz: «curso»".


Discurso: Deixa-o fluir.

A Dança

A dança começa com a troca de olhares,
Que se cruzam tímidos, como de fugida,
(Eu um pouco ansioso, tu envergonhada)
O meu revelando vontade inibida
O teu ocultando delícias ímpares.

A dança prossegue no esgrimir de linguas,
Tocando-se em golpes de estoque e parada
Ao redor de suas pontas, valsam paladares,
De outra lingua, de seios, de sexo e suor,
Tomando assim um do outro o sabor,
Num allegro andante, lento mas fremente
Em que entre coxas se dança um minuete

Continuam a dança em ritmo de tango,
Os odores que se envolvem em tom sensual
Despertando em nós o instinto animal
De levar ao êxtase nossos corpos expectantes.

Escuta: Eis o coro
E que sons de doçura infinita ele canta!
Promessas e juras em sussurros arfantes,
Suaves gemidos, ternas gargalhadas;
Audiveis envelos que a ternura agiganta

Teu corpo com meu cubro, qual manto
É vê-lo, franzino a desaparecer
No meu envolvido; a cada movimento,
mais indissociavel do meu próprio ser.
A estocada é outra; Já não há parada
Ardentes, buscamos dar e ter prazer
Em dança moderna, louca e desvairada
Se tocam os corpos sem mais nada querer
Que este bailado, enfim tão arcano,
Onde vive o desejo e o sentimento.
Todo o mundo passa para segundo plano,
E esquecemos tudo, menos o momento
De Crescendo pujante, de si mesmo ufano,
Porém condenado à partida a morrer,
Perdido num climax, prelúdio de adágio
Em que em ti se liberta todo o meu viver.



Finais de 2005

Solstício

Finda é a era em que os dias fenecem,
Em que o negrume tem na terra governo.
Em que raios do sol nenhum corpo aquecem,
E o solo morre em gelado inferno,
É dia de esperança:
para os caçadores,
Que feros cavalgam pelo firmamento
Deixamos à porta, em sinal de bonança
Boas vitualhas, como mantimento.
Enfeita-se o tronco do eixo do mundo,
brindamos comendo e bebendo à lareira
Pedimos aos deuses nova vida à eira:
Que o ventre da terra renasça, fecundo.
E dançamos loucos, a toda a brida
Celebramos felizes o retorno eterno
O desabrochar de uma nova vida
Na noite mais longa de todo o Inverno.





Escrito em finais de 2006