Diz: "Curso".
E segue-o com os olhos, com a razão ou com o coração. Dá-lhe importância, ignora-o, faz dele o que bem entenderes.
Mas diz: "Curso", e deixa o fluir. Deixa-o, ao discurso, seguir o seu caminho.
Deixa-o. Que surja espontâneo, filho de uma tempestade, criadora de torrentes indómitas, ansiosas por se libertar. Deixa-o brotar da pedra morta, vindo sabe-se lá de onde, sabe-se lá porquê. Apeteceu-lhe brotar.
Deixa que ele te leve até um mar de maravilhas, ou te leve a uma foz onde desaguam outros rios, e onde a doçura do marulhar num regato se transforme no bramido de gigantescas ondas.
Ou então que não faça nada disso. Que brote, sulque a terra por alguns metros, e depois esmoreça e morra no nada.
Mas mesmo assim, diz: "curso". E deixa-o fluir para algures, para nenhures, não importa. Sem qualquer outro destino que não o de amar palavras.
Porque mesmo nesse caso, cumpre a finalidade de irrigar as áridas planícies do silêncio, quando estas se tornam demasiado insuportáveis, e precisas do ruido de uma voz. Nem que seja a tua, a pedir: "Diz. Diz: «curso»".
Discurso: Deixa-o fluir.
domingo, 6 de abril de 2008
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